Atualmente o termo Madeira de Lei designa uma madeira dura, de grande qualidade e de alto valor comercial. Mas você sabe porquê? Ao utilizar a madeira de lei, o marceneiro ou carpinteiro perceberá maior densidade, resistência mecânica, maior resistência a umidade e aos fungos. Sua cor varia bastante podendo iniciar bastante clara como o marfim, passando pelos beges, amarelados, seguindo pelos tons avermelhados até marrons bem escuros. Sua superfície é lisa e lustrosa, devido ás resinas que auxiliam em sua preservação.

> Neste projeto, a madeira garante aconchego visual e integração da casa com a mata, revestindo as aberturas, o forro, escadarias e deck 

No período do Brasil Império, para evitar o contrabando desenfreado da madeira nativa do Brasil pelos espanhóis, franceses e ingleses que aportavam pelos litorais da nossa costa, a coroa portuguesa decidiu que qualquer extração de madeira deveria ser feita somente sob sua autorização legal, com a assinatura do governador da província. Nesta época, a conotação madeira de lei não tinha nenhuma definição técnica, seria somente para expressar publicamente que estaria proibida a extração de qualquer madeira nativa, independente de uso a que se destinaria.

Registros informam ser o pau-brasil a primeira madeira de lei objeto desta política de proteção para o mercado interno, digamos, pois Portugal teria interesses em fazer uso exclusivo desta madeira de características muito especiais como cor, resistência e densidade para construção de embarcações e móveis. O interesse dos europeus no pau-brasil desde o descobrimento do Brasil até aquele momento da lei, 1698, já tinha resultado na escassez da espécie e algo precisava ser feito contra o contrabando.

Galé Portuguesa do século XVIII

Com o início da República a necessidade desta regulamentação mudou. No século XX iniciaram as técnicas de reflorestamento para fins de papel e celulose. Ainda surgiu o MDF, os compensados, as lâminas. As utilizações da madeira mudaram mudando a nossa relação e necessidade de uso da madeira maciça.

Então toda madeira maciça é de lei?

Vamos à fisiologia. Quando a planta cresce, o caule apresenta basicamente 2 partes, o cerne e o alburno.

O anel mais claro é o alburno, ele fica mais ao exterior do caule e é onde circula a água e a seiva bruta no sentido ascendente, da raiz ás folhas. Somente a medida que a planta cresce e o alburno morre a suas células passam a fazer parte do cerne. No cerne, os elementos do lenho estão mortos e há uma impregnação de substâncias que evitam a proliferação de fungos, são antissépticos, óleos, resinas, taninos, que evitam a decomposição dos tecidos mortos, que os escurecem e aromatizam, protegendo naturalmente conta cupins e outros insetos.

É do cerne que é utilizada a madeira de lei, mais densa, resinada, escura, resistente.
Isto significa que para ser madeira de lei, a árvore precisa ter idade. Ela precisa ter cerne o suficiente sustentar a espessura da peça do móvel que irá receber. Porém, o que precisamos lembrar que como ser vivo, pode levar até 30 anos para isto acontecer! A cor do cerne também varia muito.  Ipê, cedro, mogno, jacarandá, jequitibá, tauari, e as importadas carvalho e faia são apenas algumas das inúmeras madeiras de lei.



> Os moveis de Sérgio Rodrigues antigamente eram feitos em jacarandá. Atualmente são feitas em imbuia ou tauari.

 

 
> O Studio Guilherme Torres soube valorizar o cumaru e a abundante luz neste incrível projeto em Maringá.

Manejo Florestal

Muitas vezes nos pegamos pensando em árvores centenárias. Porém a engenharia florestal nos informa que muitas espécies encerram seu ciclo de vida por volta 40 anos, algumas ainda, aos 25 anos, sendo necessário serem retiradas do ecossistema antes de seu apodrecimento.

A indústria moveleira aguarda ansiosa pelos jacarandás que virão poder ser utilizados em 10 ou 15 anos. Neste meio tempo, quem possui uma peça feita desta madeira já sabe que tem uma peça de alto valor de mercado! Enquanto isso, como o Brasil é um país abundante em espécies, podemos contar com o tauari e com o jequitibá, cujos cernes estão em pleno atendimento das demandas da indústria moveleira através da mesma técnica, o manejo florestal. Trata-se do conjunto de técnicas de preservação do meio ambiente por meio da colheita das árvores mais velhas, localizando em seu redor mudas aptas a ocupar o espaço que será deixado por esta retirada. O projeto de manejo florestal pode levar 30 anos, a retirada de cada exemplar só acontece com o devido cuidado para não haver derrubada de nenhuma muda, garantindo a reposição do exemplar na natureza.

Você se pergunta se já foi pensado em reflorestamento para o barateamento desta madeira! Com certeza! Mas há espécies que precisam da vida na complexidade do ecossistema da floresta para atingirem seu tamanho ideal, tronco único e ereto. Um jacarandá plantado isoladamente, por exemplo, poderá ter seu tronco bifurcado, espalhando-se, levando-o a crescer menos, pois haverá menor necessidade de busca por sol acima das copas das outras árvores. Isto influenciará diretamente na qualidade da madeira. O jeito é esperar a natureza agir sozinha e respeitar seu ciclo natural!

A madeira é viva, ela possui água, ela trabalha, respira e troca aromas de suas resinas, acrescenta conforto visual incrível. Possui características que permitem ou não receber entalhes, aplicações, e desta forma expressa a sua personalidade. Conhecer estas características e perceber quão importante é esta relação de amor entre o homem e a madeira nos dá muito orgulho!